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Vapor, engenho e arte!

Tibor Moricz e O Peregrino

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Tibor Moricz não é um autor estreante e seus romances já nos são conhecidos. O Autor de Fome e Síndrome de Cérbero desta vez nos presenteia com O Peregrino – Um romance ambientado no meio oeste americano, ano aproximado de 1870. Um homem desperta numa caverna, seminu, cabeludo, barbudo, com unhas longas e retorcidas. Sem memória nenhuma do passado. Ao seu lado, um Colt45 reluzente como novo. – Eis o nosso ponto de partida neste romance que foi batizado de forma extrovertida por Romeu Martins como “bullets and sorcery“. O Peregrino será lançado pela Editora Draco. O autor me revelou alguns elementos deste romance em uma breve entrevista.


1-Como o criador classifica sua obra? Nos conte um pouco mais a respeito deste universo que parece flertar com o Weird West e o Steampunk.

O Peregrino nasceu conto. Era pra ser um conto. Por tradição não elaboro antecipadamente as tramas de narrativas curtas. Deixo as palavras irem fluindo, juntando parágrafos. Às vezes não funciona e às vezes funciona bem demais, como nesse caso. Me dei conta de que tinha muito mais nas mãos do que um conto lá pela página 10. Foi aí que antevi toda a magnitude da história, toda a sua potencialidade. Mudei drasticamente de estratégia e comecei, então, um romance. Não pensei em gêneros nem em subgêneros enquanto escrevia. Deixei a coisa fluir, presa, porém, a um fio condutor tênue. Agora, pronto, vejo que tenho nas mãos uma obra que mistura fantasia e ficção científica. Reúne características de ambas. É um romance com características Steampunk, mas não foi escrito para ser assim. Não houve uma planificação neste sentido. Surgiu naturalmente.

2-O Protagonista tem como cenário de sua peregrinação três cidades – Downtown, Middletown e Uptown – Fale sobre estas cidades e os objetivos desta procura por crianças perdidas.

Downtown representa uma prosaica cidade do velho oeste americano, sem atrativos, sem tecnologia a não ser o comum para a época. Sua população formada por velhos quase centenários, vive apenas para um único objetivo: aguardar a chegada de um Peregrino – presente no inconsciente coletivo da cidade – e vê-lo partir em busca dos filhos há tanto tempo sequestrados.

Middletown e Uptown são fases dentro do interminável ciclo de eventos que marcam a história. Não direi mais a respeito dessas cidades sob o risco de cometer um “tramaticídio”, revelação de spoilers que possam retirar o elemento surpresa de futuros leitores.

Existem interesses escusos, enfrentamentos extraordinários e duelos, tão característicos à época. E uma gama de personagens bizarras que permeiam a história e dão a ela a liga necessária.

Essa busca pelas crianças se mostra mais complexa do que parecia em princípio e o protagonista se verá cada vez mais enrodilhado numa sucessão de eventos que deflagrarão muito mais que simples ação de resgate. Verá que está em busca de si mesmo, pelo próprio passado e pelos terríveis segredos que ele esconde.

3-O Misterioso Colt 45 parece ser aquele objeto que em toda historia capta a atenção do leitor e o nosso peregrino se enquadra no papel de um perfeito anti-herói. O que pode contar a respeito?

O Peregrino não é anti-herói nem herói. Ele se sente um estranho numa terra estranha. Ele está lá, não sabe como nem por que, e age conforme as circunstâncias. Vende muito mais a imagem de vilão que de mocinho. O Colt 45 agrega à história a característica de fantasia, ao jamais ficar descarregada e jamais errar um tiro, mesmo que esteja mal apontada. Ela é o vetor “negro”, uma influência nefasta e obscura que conduz as ações do protagonista. Tem papel fundamental na história e é elemento crucial em todo o seu desenrolar.

Existem outros elementos na trama – excentricidades –, além do Colt 45, que dialogam com a fantasia.

4-Fale um pouco sobre sua relação com literatura fantástica e em particular com o Steampunk.

Comecei a escrever com ambições profissionais há cerca de seis anos. Antes disso fiquei sem escrever nada por quase vinte anos. Antes disso, ainda, eu escrevia pequenos contos, todos eles realistas, embora fantásticos em sua maioria. Síndrome de Cérbero, meu primeiro livro – escrito depois de várias tentativas e “treinos” com outros títulos, alguns que jamais serão publicados por serem muito ruins – foi recebido como FC, embora eu tenha relutado em aceitar esse rótulo. Eu estava falando das dores e dos conflitos humanos! Não de viagens temporais, embora elas existissem. Custei a aceitar o fato.

Depois disso fui lentamente adentrando nesse universo fascinante. Já havia lido desde a adolescência vários livros de ficção científica, estimulado pela minha mãe, leitora voraz, uma verdadeira traça de biblioteca. Todos eles de escritores clássicos no gênero. Só de uns anos pra cá que comecei a conhecer outros autores, muitos deles brasileiros. Minha história na literatura especulativa é muito recente e ainda engatinho dentro dela.

O Steampunk é também um gênero ao qual estou sendo pouco a pouco apresentado, lendo obras aqui e ali. Não me considero um entendedor no assunto. Bem, não me considero entendedor em nenhum assunto. Mas me esforço.

5-Como autor fale a respeito do cenário nacional da literatura fantástica. E a respeito das campanhas de incentivo a leitura de autores nacionais. O que aguarda para este ano em que novos autores estão surgindo?

Vemos uma efervescência de lançamentos, de surgimento de novas editoras e muito boa vontade na avaliação de trabalhos de autores ainda nunca publicados. Isso é fascinante e dá uma mostra do que será nosso futuro imediato se os lançamentos encontrarem apreciação dentro de um universo de leitores que não é muito grande. Também será fascinante se esses lançamentos aguardados trouxerem em seu bojo uma qualidade literária mínima. Tenho boas perspectivas para o futuro.

Quanto a campanhas de incentivo a leitura de autores nacionais, nenhuma dará certo se não houver esse incentivo já na mais tenra idade, com o apoio e exemplo dos pais. Mas não um incentivo exclusivo para leitura de obras de autores nacionais. Leitura geral, abrangente, mainstream e gênero. Os autores nacionais de gênero terão que conquistar a confiança dos leitores com esforço próprio, com talento próprio, e não com subsídios externos.

6-Quais os autores que influenciaram seu trabalho?

Essa é uma pergunta que todos me fazem e para todos dou a mesma resposta: não tenho nenhum autor que me seja referencial. Sou o resultado de uma sopa primordial de onde borbulha toda a gama de leituras que fiz na vida.

7-Pra terminar, defina o Steampunk em uma frase.

Steampunk é vapor, engenho e arte.

Por Cândido Ruiz


~ by rcandido on 12 de março de 2010. Tagged: , , , , , ,

4 Responses to “Vapor, engenho e arte!”

  1. [...] Para saber mais vale a pena ler a breve entrevista cedido pelo autor ao blog O Nocturlábio aqui. [...]

  2. [...] http://nocturlabio.steambook.com.br/2010/03/12/vapor-engenho-e-arte/ [...]

  3. Eu conheci o trabalho do escritor Tibor Moricz em uma das feiras promovidas pela Editora Tarja, desejo, profundamente, que “O Peregrino” ostente a mesma qualidade do livro “Fome”, cujo lugar de destaque jamais será perdido em minhas prateleiras… ou pilhas de livros.

  4. muito bom!! tô ansiosa pra ler =DDDD

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